
A Prefeitura de Campinas (SP) publicou neste sábado (20), em edição extra do Diário Oficial, um decreto que estabelece novo fechamento do comércio da cidade, por uma semana, e proíbe a realização de cirurgias eletivas na rede privada de saúde. As medidas foram tomadas para buscar conter a pandemia do novo coronavírus.
De acordo com o documento, a proibição de realização de cirurgias eletivas vale até que ocorra nova decisão, visando manter a disponibilidade de leitos.
O texto também destaca que o veto não se aplica às cirurgias de urgência em todas as especialidades médico-cirúrgicas, bem como às cirurgias oncológicas e cardíacas, mediante a devida justificativa relatada no prontuário médico.
Já a suspensão das atividades comerciais, conforme o documento, vale para shopping centers e comércios, inclusive galeras e congêneres, desta segunda-feira (22) até a segunda seguinte (29).
O decreto também observa que estes estabelecimentos permanecem autorizados a funcionar através de entrega (delivery) ou retirada (drive thru).
Na sexta-feira (19), o prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), justificou as medidas pela necessidade de "salvaguardar vidas", por conta do alto índice de ocupação de leitos, e para mostrar, de forma prática, que "as coisas não estão normais".
"Por mais que a gente fale, me parece que tem pessoas
ainda que têm uma dificuldade de ter essa compreensão, que o momento exige o
isolamento", disse o prefeito.
Apesar de serem válidas inicialmente por uma semana, as restrições têm possibilidade de prorrogação por mais sete dias.
Os demais serviços liberados por decreto em Campinas, como
concessionárias, óticas e escritórios, bem como o funcionamento de igrejas e
templos religiosos, estão mantidos.
Pressão por leitos
Durante a coletiva, o prefeito anunciou que recebeu um compromisso do governo do Estado na criação de 100 novos leitos na região de Campinas - há a possibilidade, segundo Jonas, de que um hospital da região disponibilize as vagas, mas ele espera que o governo estadual faça uma intermediação na contratação.
Além disso, a prefeitura prevê a abertura de novas vagas na próxima semana. De acordo com o secretário de Saúde, Carmino de Souza, serão mais 10 de UTI e 13 de retaguarda na Santa Casa, além de novos 30 leitos no Hospital de Campanha, a partir da próxima semana.
O titular da pasta ainda afirmou que não desistiu da contratação de serviços do Hospital Metropolitano, que acrescentaria 15 leitos de alta complexidade e 28 de retaguarda à rede municipal. A Justiça determinou que o dinheiro de um acordo seja utilizado para pagar dívidas trabalhistas, mas a administração da unidade defende que sem a verba, nem tem como cumprir o contrato.
Marcos Pimenta, diretor da Rede Mário Gatti, reconheceu a pressão por vagas e destacou que as 28 vagas de média complexidade abertas na UPA Carlos Lourenço, adaptada para atendimento exclusivo de pacientes Covid-19, foram esgotadas no mesmo dia. Com isso, a rede municipal deverá receber outros 54 leitos até o fim da próxima semana.
Serão mais 30 vagas na UPA Carlos Lourenço, que serão instalados na área de recepção, que está fechada atualmente, e outros 24 no Hospital Ouro Verde - 10 de UTI dentro da Unidade de Cirurgia Ambulatorial e 14 na área de fisioterapia.
Ainda de acordo com o secretário, no SUS estadual, o
Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp aumentou 20 leitos de UTI e, na próxima
semana, o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) deve aumentar outros 10,
também de terapia intensiva.
Aumento de internações
Segundo a prefeitura, a decisão pelo fechamento do comércio
ocorre não somente pelo aumento de casos do novo coronavírus. A rede registrou
aumento expressivo em junho de internações de pessoas que não apresentam
sintomas de síndrome respiratória aguda grave (SRAG).
Internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)
- Março: 286
- Abril: 306
- Maio: 655
- Junho: 486
Internações gerais - não SRAG
- Março: 388
- Abril: 445
- Maio: 431
- Junho: 1.222
"Cresceu muito as demandas hospitalares por outras
questões do dia a dia, com o retorno das atividades. Esse aumento do isolamento
vai tirar essa pressão de outras enfermidades, outros acontecimentos que possam
levar a pessoa ser hospitalizada", afirmou Jonas Donizette.
Recomendação do Estado
O endurecimento da quarentena ocorre após nota técnica do Estado, que manteve a região na fase laranja (2), mas recomendou a medida devido à situação da ocupação dos leitos e avanço de casos do novo coronavírus. Na coletiva, o governo destacou que os prefeitos têm autonomia para fechar o comércio e voltar à fase vermelha, de restrição severa - o que já ocorreu em Valinhos (SP).
A flexibilização em Campinas começou a ser adotada em 8 de
julho, uma semana depois do restante da região, justamente por conta da pressão
por leitos. Durante as duas semanas de reabertura, o comércio de rua e os
shoppings receberam autorização para funcionar por quatro horas.
No mesmo período, cenas de aglomerações foram registradas na região central, enquanto os números de casos, mortes e taxas de ocupação das UTIs exclusivas para Covid-19 aumentaram.
A cidade chegou a registrar o recorde de confirmação de mortes em 24 horas, com 21 óbitos, e na quinta (18) atingiu o sexto dia seguido com 100% de ocupação nas vagas de alta complexidade do SUS Municipal.
Nesta sexta, a cidade chegou a 5.228 casos confirmados,
sendo que 203 pessoas morreram em virtude da doença.
Cirurgias eletivas
O prefeito também irá publicar um decreto em que veta cirurgias eletivas em hospitais privados, visando manter a disponibilidade de leitos na cidade.
"A cirurgia eletiva é aquela que a pessoa pode aguardar sem prejuízo à saúde, e existem critérios médicos para tomar essa decisão. Mas é que a cirurgia, por mais simples que seja, vai ocupar o leito, e o primeiro objetivo do decreto é ter mais leitos livres", justificou o prefeito.